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debate público sobre o sistema de justiça criminal








Dados empíricos mostram que a criminalidade não se distribui de forma homogênea, mas segue padrões territoriais estáveis, como já apontava a criminologia há mais de um século. Maringá (PR) é um retrato nítido desse fenômeno: ali, as mesmas regiões centrais que concentravam furtos e roubos há dez anos continuam concentrando hoje. Os moradores mudaram. O padrão, não.
A forma como se explica o crime ainda parte de um erro básico: tratar o comportamento criminoso como um fenômeno isolado do ambiente em que ocorre.
Essa leitura é confortável, mas leva a diagnósticos incompletos — e, muitas vezes, a respostas ineficazes.
Desde o início do século XX, a Escola de Chicago demonstrou que a criminalidade não se distribui de forma aleatória no espaço urbano. Ao estudar a dinâmica da cidade, seus pesquisadores observaram que determinadas regiões concentravam mais crimes do que outras — e que esses padrões permaneciam ao longo do tempo, mesmo com a substituição dos moradores (Escola de Chicago […], 2026).
O dado é incômodo: quando os moradores mudam, mas o crime permanece, o problema não está apenas nas pessoas.
A conclusão, portanto, exige um deslocamento de perspectiva. O crime não pode ser explicado apenas por quem o pratica. É preciso considerar também o território em que ele ocorre.
Essa abordagem deu origem à chamada ecologia criminal. A ideia é simples: o espaço urbano influencia o comportamento social. Fatores como circulação de pessoas, concentração de atividades econômicas, organização comunitária e acesso a recursos não determinam o crime, mas criam condições que favorecem ou dificultam sua ocorrência.
A cidade, nesse sentido, não é apenas cenário; ela ajuda a produzir o crime. A forma como os espaços urbanos são organizados e utilizados, com diferentes níveis de acesso a serviços, circulação de pessoas e oportunidades, contribui para criar ambientes mais ou menos propícios a determinados tipos de delito. Áreas centrais, marcadas por intensa circulação de pessoas e atividades econômicas, criam oportunidades distintas daquelas encontradas em regiões mais vulneráveis, onde a fragilidade institucional e social tende a ampliar conflitos. Analisar o território, portanto, não apenas indica onde o crime ocorre, mas ajuda a compreender por que ele se repete.
Essa lógica aparece com nitidez na análise da criminalidade em Maringá (Casteletto, 2014).
A espacialização das ocorrências, associada a indicadores socioeconômicos, revela padrões consistentes. Regiões centrais — especialmente o eixo entre as Zonas 1 e 3, com reflexos também em áreas adjacentes de alta circulação urbana, como áreas próximas à Zona 7 — concentram maior volume e diversidade de crimes. Trata-se de áreas com intensa circulação de pessoas, concentração de comércio e serviços e maior disponibilidade de bens.
Nesses espaços, predominam crimes contra o patrimônio, como furtos e roubos.
Já os crimes contra a pessoa tendem a ocorrer com maior frequência em regiões periféricas, marcadas por menor renda, menor infraestrutura e maior vulnerabilidade social.
Não se trata de coincidência estatística, mas de repetição estrutural.
A associação direta entre criminalidade e pobreza, nesse contexto, não se sustenta. O que os dados mostram é que diferentes tipos de crime seguem diferentes lógicas territoriais.
Os dados mais recentes reforçam esse quadro.
Mesmo com a queda expressiva de homicídios dolosos em Maringá, a distribuição espacial da criminalidade permanece relativamente estável. Regiões com maior fluxo continuam concentrando crimes patrimoniais, enquanto áreas mais vulneráveis seguem associadas a conflitos interpessoais.
Levantamentos sobre furtos e roubos de residências no município de Maringá indicam maior incidência em bairros com intensa circulação e atividade urbana relevante, especialmente em áreas centrais e adjacentes (Casteletto, 2014).
Isso indica que a intensidade da criminalidade pode variar ao longo do tempo, mas sua lógica territorial tende a permanecer.
Outro ponto relevante diz respeito à própria leitura dos dados.
Regiões com maior poder aquisitivo tendem a registrar mais ocorrências, enquanto áreas mais vulneráveis apresentam maior subnotificação, o que distorce qualquer leitura puramente quantitativa da criminalidade.
O mapa da criminalidade, portanto, não reflete apenas onde o crime ocorre, mas também onde ele é comunicado.
A organização do espaço urbano também interfere na percepção de segurança.
O isolamento em condomínios fechados não elimina a criminalidade. Apenas a desloca e a torna menos visível para determinados grupos. Cria-se uma sensação localizada de proteção, sem alteração das dinâmicas mais amplas que estruturam o crime.
Os dados confirmam o que a criminologia já indicava há décadas: o crime não é aleatório. Ele se distribui no espaço, responde à organização da cidade e segue padrões relativamente estáveis.
Enquanto o crime continuar sendo explicado apenas pelo indivíduo, continuaremos errando o diagnóstico — e, inevitavelmente, as respostas.
A pergunta, portanto, não deveria se limitar a identificar quem praticou o fato. Deveria incluir outra, igualmente relevante: por que ele ocorreu naquele lugar — e por que continua ocorrendo ali.
CASTELETTO, Hugo Santana. Violência e sua dinâmica criminal nos territórios de Maringá-PR. 2014. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Universidade Estadual de Maringá, Maringá, 2014.
PRUDENTE, Neemias Moretti. Criminologia com humor: um guia para estudantes e curiosos. Maringá: Factótum Cultural, 2025. (Coleção Conhecimento & Humor, v. 2).
ESCOLA DE CHICAGO: quando a cidade explica o crime. Factótum Cultural, 31 mar. 2026. Disponível em: https://factotumcultural.com.br/2026/03/31/escola-de-chicago-quando-a-cidade-explica-o-crime/. Acesso em: 12 abr. 2026.
Como citar: CASTELETTO, Hugo Santana; PRUDENTE, Neemias Moretti. O crime não é aleatório: o que a geografia revela sobre a criminalidade. Jornal de Ciências Criminais do IBCCRIM, 29 abr. 2026. Disponível em: https://jcc.ibccrim.org.br/artigos/o-crime-nao-e-aleatorio-o-que-a-geografia-revela-sobre-a-criminalidade/. Acesso em: 29 abr. 2026.
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