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debate público sobre o sistema de justiça criminal
Em 24 de março de 1980, o sacerdote salvadorenho Óscar Romero, de 62 anos, então arcebispo de San Salvador, capital de El Salvador, um ícone na defesa dos direitos humanos naquele país, e um dos maiores ideólogos da Teologia da Libertação na América Latina, foi covardemente assassinado a tiros, após ter celebrado uma missa na pequena capela do Hospital da Divina Providência, em San Salvador, ao lado de sua residência, “la casita de Monseñor Romero”, como é hoje conhecida e preservada como um museu histórico e memorial visitado por peregrinos do mundo inteiro. Assim que o arcebispo terminou o seu sermão, um carro vermelho parou em frente à capela, um homem armado saiu do veículo, dirigiu-se à porta e disparou contra ele, atingindo-o fatalmente. Ele morreu como um mártir, e foi santificado pelo Papa Francisco, sendo hoje chamado oficialmente de São Óscar Romero, o primeiro santo nativo do país.
Por que este texto começa com este fato? Porque pode-se afirmar que este foi um dos fatos que marcaram a intensificação da guerra civil naquele país, iniciada em outubro de 1979, com um golpe militar; e porque naquele ano de 1980, em 10 de outubro, foi fundada a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional, a FMLN, um grupo guerrilheiro formado a partir da fusão de outras cinco organizações político-militares: 1) Forças Populares de Libertação Farabundo Martí, 2) Exército Revolucionário do Povo, 3) Resistência Nacional, 4) Partido Comunista Salvadorenho e 5) Partido Revolucionário dos Trabalhadores Centroamericanos. O nome FMLN é uma referência ao líder comunista Farabundo Martí, fundador, em 1930, e dirigente do Partido Comunista Salvadorenho. Com o fim da guerra civil, o grupo guerrilheiro legalizou-se e passou a ser o mais importante partido político de esquerda de El Salvador.
Em 11 de março de 2012, Nayib Bukele, até então um jovem publicitário de 30 anos, filiado ao FMLN, foi eleito prefeito de Nuevo Cuscatlán, um pequeno município localizado no Departamento de La Libertad, em El Salvador. Três anos depois, em 1.º de março de 2015, pelo mesmo partido de esquerda, voltou a ganhar uma eleição, dessa vez para prefeito da capital, San Salvador, com 50,38% dos votos, governando a cidade até 2018, quando ganhou projeção nacional.
Em 10 de outubro de 2017, quando Bukele ainda estava na prefeitura da capital, o tribunal de ética do partido decidiu expulsá-lo, sob a acusação de violar gravemente os princípios e os valores partidários, inclusive agredindo colega de partido; sem partido, ele criou, em 2017, por meio das redes sociais, o movimento neofascista e populista denominado Novas Ideias (depois transformado em partido político), com a bandeira de ser contrário ao sistema partidário salvadorenho, seja da direita (representada pela Aliança Republicana Nacionalista, a ARENA), seja da esquerda (o próprio FMLN). Em 2019, não tendo conseguido registrar a tempo a nova legenda, lançou-se candidato à presidência pela Grande Aliança pela Unidade Nacional, o Gana, um partido de direita, apresentando-se como uma terceira via, em oposição aos tradicionais partidos da direita (ARENA) e da esquerda (FMLN), sempre usando as redes sociais e o combate à corrupção. Venceu no primeiro turno com aproximadamente 53,10% dos votos. Em 2024 foi reeleito, agora com 84,65% dos votos.
O que não se sabia é que, em 2019, o partido de Bukele, o Novas Ideias, firmou um pacto vergonhoso com as duas maiores, mais perigosas e violentas gangues do país, a Mara Salvatrucha (MS-13) e Barrio 18, para reduzir os índices de homicídios e ajudar o governo a vencer as eleições legislativas de fevereiro daquele ano.
Como se soube desse acerto espúrio? German Arriaza, um ex-procurador anticorrupção de El Salvador, disse à agência de notícias Reuters que, no intuito de ampliar seu poder e aumentar a sua popularidade, Bukele determinou o encerramento de uma investigação conduzida por sua unidade sobre as alegadas negociações do governo com as gangues. Era a primeira vez que um ex-funcionário salvadorenho acusava publicamente o governo Bukele de fechar um acordo com as gangues, que há pelo menos duas décadas assolavam o país com extorsões e assassinatos. O governo afastou Arriaza de seu cargo em maio de 2021, após um expurgo lançado por aliados legislativos de Bukele que afastou cinco juízes da Suprema Corte e o procurador-geral salvadorenho, substituídos por figuras aliadas do governo. Depois das denúncias, Arriaza exilou-se, e os membros de sua equipe, o Grupo Especial Antimáfia, ou se exilaram ou foram transferidos.
A Reuters teve acesso a um extenso, exclusivo e detalhado relatório, divulgado em dezembro de 2021, em que são apresentadas transcrições, feitas por procuradores, de supostas mensagens de áudio de telefones de integrantes das gangues, exigências escritas à mão e anotações em livros de registros, detalhando com quais detentos os funcionários do governo teriam se reunido, detalhando investigações sobre a apropriação indevida de fundos prisionais e gastos ilícitos ligados à pandemia feitos por vários ministérios governamentais. Uma vergonha!
Mas não foi apenas a Reuters que denunciou esse conchavo vergonhoso de Bukele com as gangues. Também o portal de notícias salvadorenho El Faro, um jornal digital criado em 1998, documentou este pacto para promover a queda nos homicídios.
Em passagem pelo Brasil para participar do 10º. Festival Piauí de Jornalismo, no dia 6 de setembro, em São Paulo, o jornalista Carlos Dada, cofundador do portal, e hoje também exilado, afirmou que o seu jornal documentou “todo o pacto de Bukele com as gangues, de várias maneiras, incluindo a libertação ilegal de chefes de gangues que estavam em prisões de segurança máxima, que deveriam cumprir 40 anos de condenação. Alguns deles estão hoje presos em Nova York, esperando julgamento. É justamente por alguns dos documentos produzidos nesse processo judicial em Nova York que tivemos mais detalhes das promessas de Bukele aos membros das gangues e dos benefícios que lhes concedeu. Mas documentamos até a saída dos membros das gangues da prisão. Ou seja, o pacto, a esta altura, é inegável, faz parte de um processo judicial.” Carlos Dada, depois das denúncias, teve que deixar o país após sofrer pressão e perseguição de agentes do governo. A imprensa no país não é livre e os jornalistas independentes tiveram que fugir (veja adiante).
Como se vê, este acerto entre o governo e os bandidos é o que realmente explica a queda vertiginosa no índice de homicídios naquele país, ao contrário de supostas e eficientes políticas públicas governamentais, como diz a propaganda do governo Bukele, reproduzida aqui no Brasil acriticamente e sem a devida checagem. Obviamente, depois desse início obscuro e ilegal, vieram outras medidas também fora da lei, para sustentar artificialmente a propaganda governamental mentirosa, sedutora e enganosa.
Assim, ainda segundo o jornalista, o modelo Bukele passou a utilizar, por meio da polícia e do Exército, “detenções arbitrárias e massivas, sem necessidade de ordens judiciais e sem necessidade de que existam acusações contra a pessoa, bastando que essas autoridades, por qualquer razão, digam que a pessoa é suspeita. Para dar um exemplo, revisamos atas de detenção e, algumas vezes, a razão alegada era que a pessoa ´ficou nervosa`. O regime de exceção está em seu quinto ano em El Salvador. Uma vez detido, você é levado a uma prisão na qual não pode receber visitas nem de familiares nem de advogados e onde, via de regra, os familiares nem sequer são informados sobre sua localização. Se você tiver sorte, chega a julgamento por um juiz anônimo que decidirá sua situação legal junto com outras 100 ou 200 pessoas. Ou seja, suas possibilidades de sair desse buraco são nulas.”
Segundo ele, a megaprisão Cecot, sigla para Centro de Confinamento do Terrorismo, esconde, na verdade, todo um sistema marcado por detenções em massa e restrições de direitos: “o Cecot é a imagem que está na cabeça de todos aqueles que falam do modelo Bukele. Trata-se de uma prisão impecável, absolutamente limpa, com uma taxa de ocupação de cerca de 60%, na qual vemos membros de gangues absolutamente ordenados, quase de maneira geométrica, com uma iluminação muito profissional e imagens muito planejadas. Mas essa não é a prisão para onde levam a maioria dos detidos, que vão para qualquer um dos outros 22 presídios, aos quais não permitem acesso a absolutamente nenhuma pessoa, incluindo os jornalistas que foram convidados a fazer o tour pelo Cecot. Em El Salvador, 1 em cada 50 cidadãos está preso. Dentro das prisões, voltou a tortura sistemática, perpetrada por grupos de agentes penitenciários que identificamos plenamente e que continuam atuando com total impunidade. Há mais de 400 pessoas mortas como consequência dessas torturas. Muitos foram enterrados em valas comuns sem que suas famílias tenham sido notificadas. Segundo relatório recente da Anistia Internacional e outro, separado, de um grupo de juristas independentes, o regime de Bukele comete crimes contra a humanidade.”
Aliás, com 1 em cada 50 cidadãos presos, se o Brasil imitar El Salvador, produzirá uma população carcerária de 4 milhões de pessoas. Hoje, o país tem pouco menos de 1 milhão de presos, a terceira maior população carcerária do planeta, atrás apenas de Estados Unidos (1,8 milhão) e China (1,7 milhão).
Segundo o jornalista, “pela primeira vez desde a guerra civil dos anos 1990, El Salvador tem presos políticos. Reconhecidos como presos de consciência pela Anistia Internacional, são ativistas, defensores de direitos humanos e críticos do regime. A grande maioria das pessoas detidas sob o regime de exceção — e estamos falando de cerca de 100 mil pessoas— não tem vínculos com gangues. Caíram em uma batida porque, no início, a polícia recebeu cotas de pessoas a serem detidas. Tinham de trazer determinada quantidade de pessoas detidas por dia.”
O jornalista não mente. Em 15 de julho deste ano, a Anistia Internacional denunciou que “centenas de pessoas morreram na prisão e mais de 90 mil foram presas arbitrariamente sob o regime de exceção que sustenta a guerra contra os grupos criminosos em El Salvador, o que constituiria crimes contra a humanidade.”
Já a ONG salvadorenha Socorro Jurídico elevou o número de mortos até julho deste ano para 547 e alertou que ele pode “superar muito mais de mil”. “Em vários casos, foram registradas lesões incompatíveis com as causas oficiais de morte, ou indícios de violência física e negligência médica”, destacou a Anistia Internacional em seu documento. Segundo essa ONG, a maioria dos mortos sequer havia sido condenada, e sua vida “dependia inteiramente do Estado”. “Nenhuma dessas mortes levou a uma investigação efetiva” para identificar os responsáveis, ressaltou Ana Piquer, diretora regional da Anistia Internacional, ao apresentar o relatório. “Há mães que passaram semanas percorrendo prisões sem saber onde estavam seus filhos, pessoas detidas sem saber o motivo, famílias que receberam o corpo de um ente querido sem uma explicação convincente sobre sua morte”, descreveu Ana. O documento também aponta que mais de 90 mil pessoas foram presas arbitrariamente. As prisões em massa, denúncias sistemáticas de tortura, os desaparecimentos forçados e as mortes sob custódia do Estado “não podem ser entendidas como incidentes isolados, e sim como parte de um padrão de abusos que, devido à sua escala e organização, poderiam constituir crimes contra a humanidade”.
Em relação ao trabalho da imprensa em El Salvador, o jornalista Carlos Dada afirmou que “o jornalismo independente passou a sofrer ameaças e ataques diretos por parte da polícia. Eu fui pessoalmente acusado de lavagem de dinheiro, em rede nacional, por Bukele. O El Faro foi acusado de sonegação de impostos. Outro motivo é o fato de defensores de direitos humanos que não foram embora terem sido presos. E porque o próprio Bukele e seus funcionários nos declararam inimigos públicos. Exatamente um ano atrás, vários jornalistas do El Faro viajaram para a Costa Rica para um congresso e não puderam embarcar no avião de volta ao país porque recebemos notificações de agentes estrangeiros de inteligência de que, no aeroporto, havia uma operação policial esperando para capturá-los. Com essa situação, todo o jornalismo independente, ou quase todo, está fora do país.”
Ele também explicou como Bukele sustenta-se no poder: “primeiro foi o linchamento público da oposição, que foi muito eficaz. Uma vez eliminada a oposição, que basicamente já não existe, ele ganhou a eleição legislativa seguinte. Na primeira sessão legislativa, destituiu os juízes da Suprema Corte e, nessa mesma sessão, os substituiu por outros. Também destituiu o procurador que havia aberto investigações de corrupção e o substituiu por outro. Depois, essa Suprema Corte, como uma de suas primeiras decisões, reinterpretou a Constituição para permitir a reeleição em El Salvador. E então ele começou a prender todos os críticos, todos os opositores. E isso lançou uma mensagem clara para todo mundo.”
Sobre o futuro de El Salvador, ele é pessimista, não vendo nenhuma possibilidade, a curto prazo, de que Bukele deixe o poder: “Ele já cruzou o limiar que separa o querer ficar no poder do não poder deixar o poder. Quando você cruza essa fronteira, significa que, se deixar o poder, o resto da sua vida provavelmente será muito complicada. E Bukele já está nesse ponto. Já cometeu delitos demais”.
Eis Bukele, ídolo da direita e da extrema direita brasileira. Será mesmo esse o modelo de governo que queremos para o Brasil? Fica a pergunta e a preocupação.
ANISTIA Internacional denuncia centenas de mortes em prisões de El Salvador. SWI swissinfo.ch, 16 jul. 2026. Disponível em: https://www.swissinfo.ch/por/anistia-internacional-denuncia-centenas-de-mortes-em-pris%C3%B5es-de-el-salvador/91752922. Acesso em: 10 set. 2026.
KINOSIAN, Sarah. Exclusive: Salvadoran ex-prosecutor says government quashed probe into pact with gangs. Reuters, San Salvador, 28 dez. 2021. Disponível em: https://www.reuters.com/world/americas/exclusive-salvadoran-ex-prosecutor-says-government-quashed-probe-into-pact-with-2021-12-28/. Acesso em: 10 set. 2026.
MENA, Fernanda. Preocupa ver candidatos no Brasil oferecerem modelo Bukele como solução, diz jornalista que precisou deixar El Salvador. Folha de São Paulo, São Paulo, 6 set. 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/09/preocupa-ver-candidatos-no-brasil-oferecerem-modelo-bukele-como-solucao-diz-jornalista-que-precisou-deixar-el-salvador.shtml. Acesso em: 10 set. 2026.
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