Um novo espaço de análise, reflexão e pluralidade no
debate público sobre o sistema de justiça criminal








Ao ler recente entrevista que o querido amigo e grande mestre Nilo Batista concedeu à imprensa depois de longo silêncio, passei a me lembrar do período em que chefiei seu gabinete na Secretaria de Estado da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, entre 1992 e 1994.
Era um desafio constante, diário, ininterrupto, pois o cargo que ocupava era objeto da cobiça de delegados de polícia de carreira. Quem estava ali era um advogado criminal, professor de direito penal na PUC-Rio, com longa passagem pela Comissão de Direitos Humanos e Assistência Judiciária da Ordem dos Advogados do Brasil.
Não é difícil imaginar o quanto fui sabotado e “vendido”. Praticamente tudo que chegava a mim para decidir tinha segundas intenções e me obrigava a checagens e confirmações com alguns servidores em quem eu depositava confiança. Mesmo assim, não raro tomava voltas. Mas são águas passadas…
Num desses episódios, fui consultado sobre a realização de uma megaoperação na chamada Feira de Acari, também conhecida por “Robauto”, pois, conforme se dizia na época, funcionaria ali uma grande loja clandestina de autopeças receptadas de quadrilhas de ladrões de automóveis e motocicletas.
Antes de levar a demanda ao Secretário, já que a operação pretendida seria deflagrada por um conjunto de delegacias especializadas com apoio da Polícia Militar e ampla cobertura da imprensa, resolvi, num domingo, fazer uma visita ao local, assim como quem não quer nada. Usando roupa esporte e na companhia de um único assessor, eu me apresentei no posto da PM para evitar mal-entendidos e ambos seguimos em “diligência”.
Os primeiros expositores com quem nos deparamos ofereciam ferramentas enferrujadas, no “estado de uso” como apregoavam. Até parafusos velhos e tortos estavam à venda. Na sequência, liquidificadores sem copo, copos sem liquidificadores, torradeiras, talheres que deviam ter passado pelas mãos do mágico Uri Geller, máquinas de lavar roupas, geladeiras sem porta (havia também com portas) freezers, enfim, uma infinidade de eletrodomésticos e respectivas peças avulsas aparentemente imprestáveis tomavam as calçadas.
Fazia um calor infernal, mas depois de avançarmos na caminhada, já mais para o interior da feira, fomos abordados por um sujeito vestindo um sobretudo. Ao se aproximar de nós abriu o casaco e nele, da gola à barra, estavam pendurados cordões, pulseiras e brincos de ouro (?), relógios, óculos escuros e tudo mais que se imagine possa uma pessoa usar como adorno. Ante nossa negativa de examinar a mercadoria, continuou seu caminho.
Alguns passos à frente, uma gigantesca pilha de calçados das mais variadas marcas, inclusive tênis e chuteiras, tomava o centro da rua. Todos eles novinhos em folha, alguns com etiqueta do fabricante. Fiquei realmente intrigado e perguntei o que havia para número 43. Quanta ingenuidade a minha:
— Moço, aqui é só um pé de cada par. É sapato pra perneta. O perneta rico vai na loja e compra o tênis para o pé que ele tem. O que sobra fica lá e o pessoal vende pra gente e nós revendemos pro perneta pobre que tem o pé que falta ao rico. É a “reciclagem” — disse ele, com discurso já afinado com as palavras de ordem da Rio-Eco/92 que se realizaria dali a alguns meses.
Desconcertado, agradeci e progredi na inspeção.
Numa tábua equilibrada em cima de um caixote usado em feiras havia várias dentaduras completas. Havia também um balde de água e um pequeno espelho. Fiquei de longe tomando um refrigerante numa carrocinha para observar o movimento. A horas tantas, um freguês chegou. Sem dentes, experimentou uma chapa. Não serviu. O comerciante informal pegou-a de volta, deu um banho no balde, recolocou na tábua e pegou outra. Tampouco ficou bem na boca do pretendente, pois ele não gostou da imagem mirando-se no espelho. A peça foi igualmente para o balde e voltou para a exposição. E assim com mais umas três. Nenhuma cobriu-lhe a banguela. Foi embora decepcionado. Fiquei imaginando onde o sujeito conseguia tantas dentaduras. Quem dispensaria uma prótese dentária? Seriam obtidas em hospitais? Funerárias? IML? Não esperei a chegada de outro freguês e nem fui perguntar, pois já estava chegando a hora do almoço.
Quanto às atividades ilícitas, as suspeitas de serem comercializados ali o produto de “desmanche” de veículos, certamente havia, mas isso se dava em meio a uma quantidade enorme do comércio de tralhas, velharias e bugigangas em geral, realizado por gente do povo que entabula suas estratégias de sobrevivência. Pensei que uma operação policial no local poderia trazer consequências funestas, já que a feira reunia muita gente, inclusive idosos e crianças, pois também brinquedos usados eram vendidos ali. Sugeri ao secretário que qualquer operação deveria se dar nas oficinas e ferros-velhos e não naquele local, e mesmo assim precedida de muita investigação.
Impressionou-me, porém, a criatividade do carioca. A reutilização de sapatos e de dentaduras me pareceu surpreendente e representativa da capacidade das pessoas em transformarem algo sem utilidade aparente em fonte de renda.
Foi o que vi novamente no último domingo, aqui no Rio de Janeiro, na Praia do Pontal, que fica na fronteira entre o Recreio dos Bandeirantes e a Praia da Macumba, bem em frente ao Terreirão, uma próspera comunidade da Zona Sudoeste da cidade, ponto final de linhas de ônibus que vêm de distantes subúrbios, cruzando a via expressa Transolímpica.
Estava numa das peixarias estabelecidas na movimentada praça esperando pela limpeza do meu linguado, quando a vendedora comentava com uma amiga que a partir de agora iria cobrar pela utilização da tomada da loja.
— Pois é, a garotada chega aqui e pede: “Tia posso ligar a extensão aí pra recarregar a bateria”. Primeiro deixei, pensando que era pro celular, mas logo percebi que era pra tornozeleira. Aí resolvi cobrar, né! Mando o camarada arranjar um fio comprido e se sentar lá longe, pra não comprometer a freguesia do meu quiosque. Tem dia que faz até fila.
Segui o fio que corria pelo chão e na ponta estava o rapazote, sentado no banco da praça, naquele momento transformado em “banco dos réus”, cumprindo sua pena, representada pela passageira restrição na liberdade de ir e vir, enquanto sua algema eletrônica recebia carga.
Mas aí reside uma genuína novidade: está instituída mais uma atividade econômica para quem dispõe de uma fonte de energia em local público. Já antevejo o pessoal anunciando no próximo verão:
— Carrego sua tornozeleira por R$ 30,00, precinho de ocasião!
Como citar: CASTELLAR, João Carlos. De Acari ao Pontal, não há nada igual. Jornal de Ciências Criminais do IBCCRIM, 22 abr. 2026. Disponível em: https://jcc.ibccrim.org.br/memorias-da-velha-guarda/de-acari-ao-pontal-nao-ha-nada-igual/. Acesso em: 22 abr. 2026.
Esta obra é disponibilizada sob a licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0), permitindo uso, compartilhamento, adaptação e finalidade comercial, desde que seja dado crédito adequado ao autor.
Encontrou um erro?
Nos ajude a melhorar! Envie sua correção abaixo 👇