Um novo espaço de análise, reflexão e pluralidade no
debate público sobre o sistema de justiça criminal











O podcast “Histórias do Juquery” é uma ação de extensão da Universidade Federal do ABC (UFABC) e tem por objetivo abordar as facetas da instituição que são temas de pesquisas acadêmicas, levando-as ao alcance de toda e qualquer pessoa que tenha interesse.
O Hospício do Juquery foi um grande hospital psiquiátrico inaugurado em maio de 1898 no interior de São Paulo. A instituição foi construída em uma área de cerca de 150 hectares e asilou mulheres, homens, crianças, adolescentes, idosos, presos políticos e pessoas consideradas criminosas. Considerado o maior manicômio da América Latina, a instituição chegou a abrigar 16 mil pessoas ao mesmo tempo. Mesmo sendo um local conhecido por muitos, ainda há partes de sua história que não são de conhecimento de toda a população.
A ideia nasceu por parte da doutoranda Ana Paula C. O. Freitas, com o apoio da professora orientadora Maria Gabriela da Silva Martins da Cunha Marinho. Os episódios são construídos com a participação de pesquisadores que se debruçaram sobre a história desta instituição. Atualmente, o podcast conta com onze episódios regulares e um episódio curto, onde a história de uma adolescente é o foco.
A sociedade do Juquery – bit.ly/AsociedadedoJuquery
O episódio conta com a participação da Profa. Dra. Alessandra Teixeira, que propõe uma reflexão sobre o passado como parte do presente, mostrando como a nossa sociedade ainda opera sob a mesma lógica instalada no Juquery na virada do século XIX para o XX.
A professora apresenta conceitos-chave daquela época que, ainda hoje, estruturam as políticas criminais do País. Fica evidente que o Juquery funcionava como um braço do aparato estatal criminal e que os discursos higienistas que outrora internaram centenas de pessoas são os mesmos que, atualmente, empurram milhares de indivíduos para o sistema prisional ou para as execuções sumárias.
Antes do Juquery – bit.ly/AntesdoJuquery
Com a participação do Prof. Dr. Gustavo Tarelow, o episódio busca trazer o cenário do tratamento psiquiátrico antes do Juquery. O professor aborda a mudança de um prédio localizado na Várzea do Carmo para o interior de São Paulo, destacando que o edifício localizado no centro da capital, antes de ser um manicômio, foi um convento e, depois, o quartel da Polícia Militar. O professor destaca inicialmente que o velho hospício era administrado por um militar e contava com apenas 370 leitos.
Sendo administrado por um militar, o estabelecimento contava com poucos médicos — entre eles, Francisco Franco da Rocha que, assim que iniciou seu trabalho no velho hospício, começou a pleitear um novo espaço, conseguindo fundar o Juquery.
“O Juquery, como promessa de uma nova ordem de tratamento, fracassou, assim como as instituições anteriores. Isso também demonstra o porquê de fazermos essa retrospectiva pela história da saúde mental em São Paulo” (Freitas, 2025).
Abordar o Juquery também é falar sobre o hoje.
Cemitério de vivos – bit.ly/Cemiteriodevivos
Com a presença da Profa. Dra. Maria Clementina Pereira Cunha, o episódio aborda o Juquery e o caminho de pesquisa realizado pela autora do livro “O Espelho do Mundo: Juquery, a história de um asilo”. A professora narra sua trajetória e destaca que seu interesse não era puramente a instituição, mas sim as pessoas e as vidas que por ali passaram.
A professora realizou sua pesquisa na década de 1980, quando o Juquery ainda estava ativo e com muitas pessoas internadas; assim, ela acabou vendo muito mais do que apenas os prontuários:
“Eu vi muitas coisas dentro do Juquery, muitos surtos, muitas pessoas em situações que… quando você olha, você diz: ‘bom, essa não é uma situação normal’. Isso é um sofrimento anormal, né? Mas eu não sei o que é. E eu vi muita gente lá também, nesses prontuários, que poderia ser meu amigo e tomar cerveja comigo sem ter nenhum problema. Eu vi de tudo naqueles prontuários, né?” (Cunha, 2025).
Ao longo de sua fala, a professora afirma que o Juquery é coberto por um véu que, de vez em quando, alguém levanta — e este podcast tem por objetivo descobrir a história da instituição.
Música, terapia e resistência – https://shre.ink/Musicaterapiaeresistencia
O quarto capítulo do podcast contou com a participação do músico e ex-funcionário da instituição Luizinho Gonzaga. O musicoterapeuta participou ativamente do movimento antimanicomial.
Luizinho trabalhou no Juquery na década de 1980 e encontrou na música uma forma de trabalhar com os pacientes da instituição. Assim como a professora Alessandra, Luizinho também dialoga com o presente ao tratar da realidade do Juquery:
“E aí eu me deparei no Juquery com uma loucura institucional, que é diferente. A loucura institucional é uma loucura provocada, né? Uma loucura que se impõe às pessoas, retirando-lhes a cidadania, retirando a sua identidade e enchendo a pessoa de medicamentos, né? Que os laboratórios também têm a sua parcela consumindo aí, né? A parcela de lucro, né?” (Gonzaga, 2025).
No episódio, destacamos que a instituição não proporcionava dignidade nem aos pacientes nem aos funcionários da base da pirâmide. Enquanto trabalhou no Juquery, Luizinho compôs o álbum “Terras do Juquery”, sendo que a música principal é a abertura do podcast.
Juquery, Franco da Rocha e moralidade – https://shre.ink/JuqueryFrancodaRochaemoralidade
Este episódio contou com a participação do Prof. Dr. Gustavo Tarelow, que abordou a trajetória do médico na busca pela construção do Juquery.
Consagrado como o pai da psiquiatria paulista, o médico — que se formou na Faculdade Nacional de Medicina e rapidamente conquistou o posto de diretor do velho hospício — inovou ao residir na instituição. Na entrada do Juquery, o médico determinou a construção de sua casa, onde morou com sua esposa e seis filhos.
O professor Gustavo aborda como o médico conservador atuou no Juquery e como a moralidade era o foco de sua gestão, bem como o racismo, considerando que o alienista entendia a raça negra como inferior, até mesmo em questões de doença:
“A loucura numa raça sensivelmente inferior como é a raça negra sob o ponto de vista mental, deve trazer signaes que possam, de um modo geral, distinguil-a da loucura das raças superiores. Isto é tão claro que bem dispensaria discussão” (Rocha, 1896).
Conservador, moralista e racista, Franco da Rocha também buscava a disciplina e apostava na laborterapia para alcançar tal objetivo. E, ao contrário do que o senso comum propaga, o Juquery não foi o sucesso do médico, mas sim o seu fracasso.
Juquery o laboratório de Pacheco e Silva – https://shre.ink/JuqueryolaboratoriodePachecoeSilva
Continuando a conversa com o Prof. Dr. Gustavo, este episódio foca no médico Antonio Carlos Pacheco e Silva, segundo diretor do Juquery.
A figura de Pacheco e Silva chama ainda mais a atenção que a de Franco da Rocha, considerando que o médico também era político e defendia abertamente medidas de segregação. Neste episódio, é possível entender que, enquanto o Juquery representa o fracasso de Franco da Rocha, esse mesmo fracasso se torna o sucesso de seu sucessor.
Ao longo da gestão de Pacheco e Silva (1923 a 1937), o Juquery se tornou um grande laboratório. Focando na história familiar do psiquiatra, o professor Gustavo destaca que seus familiares eram proprietários de escravizados e que Pacheco e Silva romantizava a mão de obra escrava em suas memórias.
Pacheco e Silva também foi o responsável pela construção do Sanatório Pinel e usava o Juquery como campo de experimentação: os tratamentos que apresentavam efeitos positivos nos pacientes públicos do Juquery eram, posteriormente, aplicados aos pacientes do sanatório particular (que funcionou de forma privada até 1940).
O episódio consolida a imagem de Pacheco e Silva como um dos grandes expoentes do eugenismo no Brasil, evidenciando sua repulsa por aqueles que considerava inferiores.
A história da arquitetura do Juquery – https://shre.ink/AhistoriadaarquiteturadoJuquery
Esse episódio aborda a estrutura física do Juquery e contou com a participação do Prof. Dr. Pier Pizzolato, que narra a construção da instituição pelo renomado arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo. O professor também fala sobre o Hospital Sainte-Anne, em Paris, instituição que Franco da Rocha e Ramos de Azevedo tinham como referência.
O episódio é marcado pela discussão sobre a monumental dimensão territorial da instituição e sobre o que pode ser feito, hoje, com as construções que ainda estão de pé no local.
Juquery, gênero e psicopatia – https://shre.ink/Juquerygeneroepsicopatia
Contando com a presença da Mestra Camille Cardoso, este episódio é focado nos prontuários de pacientes do manicômio judiciário sob um recorte de gênero. A convidada demonstra como as mulheres recebiam diagnósticos e punições mais severas que os homens em posições equivalentes.
O Manicômio Judiciário de Franco da Rocha, na época ainda subordinado ao Juquery, foi construído para desafogar as penitenciárias do estado; no entanto, com a transferência dos presos, as instalações do manicômio passaram a ser insuficientes. O episódio também ajuda a compreender que, ao longo da história da instituição, nem todos os pacientes eram criminosos perigosos que aterrorizavam o estado — como exemplo, aborda-se o caso de uma mulher internada devido à dependência de drogas ilícitas.
“Muitas pessoas internadas no Juquery tinham como núcleo do problema não estar dentro do papel social. O Juquery não era sobre doença mental, e sim moral. E precisamos ter em mente que as classificações das doenças mentais sofrem grandes alterações, e, na época, ‘psicopata’ era um termo relativo (Freitas, 2025)”.
Camille traz o caso de Alice Ferreira, uma mulher que foi espancada pelo marido em público — sem que ele fosse preso — e que acabou matando-o com um tiro. Outro caso é o de Marta Adélia, que também sofreu violência por parte de seu companheiro e o matou. Ambas foram diagnosticadas como psicopatas.
O episódio é marcado por essas histórias e pela discussão sobre a disparidade do tratamento de gênero por parte do Judiciário e dos médicos.
Psicocirurgias e patologização das mulheres – https://shre.ink/Psicocirurgiasepatologizacaodasmulheres
Neste episódio, o foco permaneceu na questão de gênero dentro do Juquery. A convidada Profa. Dra. Eliza Toledo demonstra como a instituição adotou cirurgias no cérebro para controlar as mulheres que ali eram internadas.
Segundo a historiadora, as mulheres eram usadas em cirurgias experimentais; os homens submetidos à psicocirurgia somam pouco mais de 5% do total de 400 prontuários analisados por ela.
O episódio chama a atenção pelo uso dessas cirurgias preferencialmente em mulheres e pelos casos assustadores citados pela convidada — como o de uma paciente que foi internada pelo próprio marido e submetida à psicocirurgia a pedido dele.
Raça e loucura – https://shre.ink/Racaeloucura
Com a participação da Profa Dra. Rosana Machin, esse episódio trata da presença de pessoas negras na instituição.
O idealizador da instituição e seu primeiro diretor, Franco da Rocha, entendia que até a loucura se manifestava de forma diferente de acordo com a raça. Ao longo das análises realizadas pelos médicos, considerava-se o tamanho do crânio, dos pés e do nariz dos pacientes, praticando-se a craniometria e o racismo científico, métodos alinhados às teorias do médico italiano Cesare Lombroso.
Em seu trabalho, a professora aponta os seguintes dados de entrada de pacientes entre 1898 e 1920: durante esse período, foram internados 3.301 brancos, 478 negros, 440 pardos e 47 pessoas de outras raças, além de 659 que não foram classificadas.
Para a professora, o marcador de raça ficou evidente também pelo silêncio e pela falta de assistência; com isso, o Juquery foi se tornando um depósito de pessoas.
A psicanálise de Franco da Rocha – https://shre.ink/ApsicanalisedeFrancodaRocha
Voltando a falar do idealizador do Juquery, este episódio tem como convidada a Dra. Gabriela Balaguer, que inicia relatando sua motivação para estudar o médico e o asilo.
Para Gabriela Balaguer, dizer que Franco da Rocha “fez o que pôde” é tirar a responsabilidade do psiquiatra por tudo o que aconteceu na instituição. A convidada aborda a atuação de Franco da Rocha e analisa o fato de o estudo da psicanálise por parte dele não ter chegado aos pacientes do Juquery, o que acabou tornando a psicanálise um produto exclusivo da elite.
O podcast ainda tem muitos temas e vidas para abordar. Como forma de expor ainda mais as violências sofridas dentro do hospital, contamos com um especial de “histórias”, cuja primeira narrativa já está disponível.
Histórias: o corpo em questão – https://shre.ink/Historiasocorpoemquestao
Em oito minutos, o episódio conta a história de Mario e Maria, um jovem que foi internado no Juquery aos 15 anos, no pavilhão destinado aos “menores anormais”, que só aceitava meninos.
Desde a sua entrada na instituição, tudo o que Mario fazia era analisado com o fim de confirmar seu diagnóstico:
“Para os médicos, Mario não tinha noção de pudor, pois despia-se sempre que pediam sem constrangimento, inclusive nos exames de seus órgãos sexuais. O pudor e a moral no Juquery eram aspectos julgados desde a entrada do paciente e muitas internações psiquiátricas não nasceram com uma doença mental, mas sim com a quebra do pacto social da moral e do pudor” (Freitas, 2026).
Tudo sobre o paciente foi posto em análise, inclusive seu gênero, sendo diagnosticado com pseudo-hermafroditismo. Com isso, Mario virou Maria e faleceu na instituição em 1937.
Cumprindo o papel de extensão universitária da UFABC, os episódios trazem pesquisadores dedicados a estudos profundos, traduzindo o rigor dos trabalhos acadêmicos em uma linguagem acessível para toda a sociedade civil. O projeto segue ativo, reforçando que ainda há muitas camadas e temas a serem desvelados sobre a história do Hospício do Juquery.
Quem tiver histórias para nos contar pode escrever para: historiasdojuquerypodcast@gmail.com.
Para acompanhar as atualizações, siga o Instagram: @historiasdojuquerypodcast. Os episódios estão disponíveis no Spotify (https://shre.ink/PodcastHistoriasdoJuquery) e no YouTube (https://youtube.com/@historiasdojuquerypodcast?si=Q2B-dOHalejFyAsj).
BARBOSA, Rosana Machin. A presença negra numa instituição modelar: o Hospício do Juquery. 1992. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1992.
BALAGUER, Gabriela. O açúcar da psicanálise: Franco da Rocha, psiquiatria e recepção das ideias psicanalíticas em São Paulo. 2005. Dissertação (Mestrado em Psicologia Social e do Trabalho) – Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.
CARDOSO, Camilie Cristina Cada. As faces da psicopatia: violência e torpor na Assistência a Psicopatas do Estado de São Paulo (1930-1968). 2020. Dissertação (Mestrado em História Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2020.
CUNHA, Maria Clementina Pereira. O espelho do mundo: Juquery, a história de um asilo. São Paulo: Paz & Terra, 1986.
PIZZOLATO, Pier Paolo Bertuzzi. O Juquery: sua implantação, projeto arquitetônico e diretrizes para uma nova intervenção. 2008. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008.
TARELOW, Gustavo Querodia. Entre comas, febres e convulsões: os tratamentos de choque no Hospital do Juquery (1923-1937). Santo André: EdUFABC, 2015.
TARELOW, Gustavo Querodia. Antonio Carlos Pacheco e Silva: psiquiatria e política em uma trajetória singular (1898-1988). 2018. Tese (Doutorado em Saúde Coletiva) – Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2018.
TEIXEIRA, Alessandra. Do sujeito de direito ao estado de exceção: o percurso contemporâneo do sistema penitenciário brasileiro. 2006. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006.
TOLEDO, Eliza Teixeira de. A circulação e aplicação da psicocirurgia no hospital psiquiátrico do Juquery, São Paulo: uma questão de gênero (1936-1956). Porto Alegre: ediPUCRS, 2022.
Encontrou um erro?
Nos ajude a melhorar! Envie sua correção abaixo 👇